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Os Artigos


Article #51
2-06-2020

Tendências Económicas no Contexto Post-COVID 

Mobirise

Luís Cabral

Professor de Economia na NYU Stern School of Business e na AESE Business School.

Durante as duas primeiras décadas deste século assistimos a uma série de mudanças na economia e na sociedade. Sem querer hierarquizar a importância de cada uma, podemos incluir: (i) a terceira fase da Revolução Digital, isto é, o desenvolvimento da inteligência artificial com tecnologia genérica; (ii) a re-organização do trabalho e da empresa (e.g., a emergência da 'gig economy'); (iii) a continuação (aceleração?) do processo de globalização; (iv) os desafios das alterações climáticas e da desigualdade económica e social; (v) a diferente mentalidade das novas gerações; (vi) a reflexão sobre o papel relativo do Estado social, da União Europeia e de outras instituições.

Como se estes não fossem desafios suficientes, o ano 2020 trouxe-nos um choque adicional — e, de alguma forma, inesperado — que, essencialmente, colocou a economia mundial em 'pausa'. À medida que a crise de saúde se resolve, a pergunta mais natural que se põe — a pergunta a que Luis Cabral tentará responder — centra-se na determinação do 'novo normal' na era post-COVID, nomeadamente à luz das grandes tendências acima descritas. 

Hoje a nossa recomendação a sessão online do Prof. Luís Cabral, já no próximo dia 4 de junho, às 18:00, para a qual se pode inscrever aqui>>


Article #50
1-06-2020

O trade-off entre eficiência e resiliência

Mobirise

José Miguel Pinto dos Santos

Professor de Finanças e Diretor do Executive MBA AESE

A ciência económica é a arte da escolha. Investiga como recursos limitados podem ser combinados para produzir bens e serviços, e como o produto pode ser distribuído. Recursos produtivos é principalmente capacidade de trabalho, mas são também conhecimento técnico e organização social, equipamentos, infra-estruturas e recursos naturais. O produto são bens de consumo como pão, cerveja e bifes, serviços como consultas médicas, filmes de terror e debates parlamentares, e investimento em capacidade produtiva futura. Distribuição é a repartição do produto ou rendimento entre, usando pontualmente a castiça terminologia marxista-leninista, produtores e parasitas. Tudo isto é sobejamente conhecido.

Menos lembrado é que a gestão económica é a arte do equilíbrio. É o balancear da eficiência com a resiliência. Eficiência é conseguir mais com menos. É a menina querida de economistas, políticos e gestores, e não há working-paper, discurso ou plano estratégico que não a mencione. Resiliência é a capacidade de sofrer pouco caso algo corra muito mal. É a gata-borralheira dos gestores públicos e privados nacionais, nunca mencionada nos debates, sempre esquecida nas políticas.

Tanto a eficiência como a resiliência são desejáveis, mas uma tem custos em termos da outra. Quando se aumenta a eficiência de um sistema é usual que ele perca um pouco de resiliência, e quanto mais resiliência ele tiver menos eficiente será. Um exemplo deste trade-off é o sistema just-in-time: a eficiência de um processo produtivo aumenta à medida que os stocks de matérias-primas e produtos em curso tendem para zero. Stocks são recursos parados, e recursos parados são um desperdício, uma perda de eficiência. No entanto stocks são absorsores de choques. Permitem que o sistema continue a operar na ocorrência de imprevistos, como um atraso na entrega de um componente. Um aparte: note-se que o just-in-time é tanto mais possível para as empresas tanto quanto mais a infra-estrutura pública e social for resiliente, isto é, quanto mais capacidade excedentária tiver para evitar que ocorram engarrafamentos rodoviários, laborais, legais, administrativos e outros. As empresas podem ser tão mais eficientes quanto mais gordo foi o investimento em bens públicos. O just-in-time será possível no Japão; é impossível em Angola.

Uma área em que este trade-off também se faz sentir são as finanças, as públicas e as privadas. Dinheiro em caixa não rende e é uma ineficiência: mas evita apertos. Empréstimos poupam capitais próprios e são eficientes (se o ROI for superior à taxa de juro que efectivamente se suporta): mas aumentam o risco e diminuem a resiliência. Reservas de ouro, direitos especiais de saque e obrigações do governo americano podem ser aplicações pouco eficientes do dinheiro público: mas aumentam a capacidade de enfrentar crises e constituem uma pesada herança alegremente recebida por gerações futuras.

Mas para que serve a resiliência? Serve para enfrentar crises com um mínimo de desconforto e em casos mais extremos, permite mesmo a sobrevivência. Que tipo de crises? Quase todas: crises nos nossos parceiros comerciais que fazem reduzir as nossas exportações ou tornam mais caras as importações; crises humanitárias como invasões pacíficas de refugiados e crises militares como invasões belicosas de exércitos inimigos; crises na saúde pública como pandemias desconhecidas e crises por desastres naturais como terramotos e tempestades; crises demográficas e crises no sistema financeiro e na segurança social. Estas crises podem ser enfrentadas de dois modos: ou aguentando-as com longanimidade, ou combatendo-as com dinheiro e com aquilo que o dinheiro compra: alimentos, alojamentos, armamentos, medicamentos e as tecnologias e equipamentos que lhes dão corpo. Na falta de dinheiro resta ao povo aguentar. Que o povo aguenta, aguenta, mas à custa de um sofrimento inútil porque evitável. Evitável como? Operacionalmente com folga, financeiramente com reservas. E como se cria folga? Com investimento. E como se constroem reservas? Com poupança.

O trade-off entre eficiência e resiliência encontra-se presente em toda a actividade económica mas, em Portugal, parece passar desapercebido às famílias, às empresas e ao Estado. Evidência? Observe-se a insolvabilidade crónica das famílias: falta de reservas. Contemple-se os gargalos perenes nos serviços públicos, da justiça à saúde: falta de folga. Aprecie-se a insolvência regular do estado: despesismo em excesso. Pondere-se a inveterada descapitalização das empresas e as suas consequências: sobre endividamento e pré-falência.

Mas a resiliência não é importante apenas para sobreviver a crises. É um elemento fundamental para a confiança dos agentes económicos, confiança essencial para a expansão do consumo das famílias e investimento das empresas, motores sustentáveis do crescimento e da criação de emprego.

Artigo publicado no Público a 26 de Novembro de 2015.

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